O Pai que queria Eterno - 29/05/2023

Ontem foi daqueles dias que vão marcando tua alma, teu espírito, teu coração. Vão te surrando para deixar o teu couro mais curtido, e vão na incansável lições de uma vida, te deixando mais maduro, forte e endurecido.

Nosso pai, a alguns dias em um acidente quando se engasgou comendo uma bergamota no lar onde hoje vive, teve sérias complicações. Algum resquício deste alimento talvez possa ter se alojado no pulmão e iniciado um grave processo de infecção. 

Ontem, levado as pressas ao hospital de Nova Petrópolis, foi reanimado após 4 paradas cardíacas. 

Assim, que soube, imediatamente me desloquei a Nova Petrópolis, então os sentimentos que quero aqui registrar. 

Primeiro, momentos de uma vontade imensa de chorar, talvez por estar próxima a despedida da presença física dele neste plano. Pelos momentos não vividos. Pela história de nossas vidas, que injusta e inexplicavelmente nos alijou da presença de nossa mãe, e portanto, nos ceifou de muitas histórias. 

Dizem que é o que estava escrito, mas até hoje não entendo porque disso.

Porque minha mãe não pode conhecer seus netos.

Porque meus filhos não puderam conviver com sua avó.

Porque meu pai "se ausentou" mesmo em um corpo forte, desta vida e também de alguma nos ausentamos de sua presença com esta terrível doença que o gradualmente fez esquecer da sua história.

Chorei, mas não me puni.

Sempre processei a minha relação com ele.

Tenho certeza que ele, se consciente, acataria nossas decisões de vida. 

Resolvemos viver e não nos aprisionar a necessidade de estar junto dele.

Já não sentia a presença do meu pai. 

Esta está congelada em uma fotografia, retirada de um filme super 8 resgatado, que compartilhei com meus irmãos, dizendo "este é o pai que queria eterno". 

Pois é o pai das minhas melhores lembranças, lembranças de um tempo em que a vida era perfeita, e as preocupações de uma vida adulta estavam longe de nos afligirem. Um tempo de felicidade e convivência com nosso pai, mãe e irmãos, primos. Onde ele era o herói. 

Depois este sonho acabou, primeiro com a doença da mãe, depois com sua morte, depois com a nova parceria de nosso pai, a Neiva, que o fez ou ela fez, destruir muitas memórias da presença dela. Embora tenha dado "minha benção" e tenha entendido que o pai deveria ser feliz, sempre tive imensa dificuldade de aceitar ela em nossa vidas. Ela também não mais está entre nós. Com certeza, se viva, teria deixado nosso pai, e isso teria sido ainda pior.

Então esse era o pai, daquela fotografia, daquele momento que quero eterno. 

Hoje com o corpo cansado, me dirigia a Nova Petrópolis, consciente que o melhor para ele é descansar. É se juntar a nossa mãe, sua esposa e paixão de sua vida. É sair deste corpo cansado e doente. 

No Hospital, antes de ser transferido a Caxias do Sul, para UTI, pedi um momento para ficar sozinho com ele, o beijei, assim como fiz com minha mãe, quando ia ao hospital. Maldita criação que nos afastou do afeto, do toque, do dizer "eu te amo". Ali disse isso, e também disse que ele poderia ir, pois havia feito um ótimo trabalho com seus filhos e sua família. Disse para ir tranquilo. Foi um momento de forte emoção, e também ficará na minha memória.  

Ele quis ir, pois 4 paradas cardíacas indicam essa vontade. Mas nós saudáveis e nossas estruturas hospitalares, não o deixaram partir. Talvez não seja realmente a sua hora, ou talvez ele queira nos preparar para que a despedida seja menos dolorosa. Ou talvez ele queira todos os filhos ao seu lado quando partir. Ou talvez tudo isso seja uma tremenda bobagem, e narrativas que construímos para justificar porque as coisas são como são. 

Talvez seja só isso. As coisas são assim, e não há explicação. 

Está ele hoje na UTI, entubado, lutando contra uma infecção pulmonar, inconsciente e quem sabe com sequelas dos minutos que esteve para morrer. Não sabemos. 

O que sei e desejo, é que não sofra, e que parta com o sentimento de ter tido uma vida plena e de ter feito um ótimo trabalho neste plano. E se há paraíso ou outras vidas, que reencontre sua alma gêmea.

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